UNIVERSO POLYANA: O último adeus…

29.10.2013 – Eu estava em casa, pronta para nadar. Lembro da Jana, uma amiga querida, estar comigo. De repente, começou a chover, então, sentamos no sofá e esperamos a chuva passar. Meu telefone tocou, era minha tia Dani.

– Poly, onde você está?
– Estou em casa, por que?
– Você está sozinha?
– Não, estou com a Jana. Dani, o que foi? Que voz é essa?
– Deixa eu falar com a Jana!
– DANI, NÃO! O QUE ACONTECEU? – Meu coração estava a mil.
– Pó, aconteceu um acidente…

Meu coração disparou. Acidente? Minhas irmãs, meu Deus. Minha mãe! Meu pai! Em segundos milhões de coisas passaram pela minha cabeça.

– Acidente com quem? – Lágrimas escorriam.
– Com seu pai.
– Ele está bem, Dan?
– Não, Pó! Ele se foi. – Lágrimas escorriam e escorrem nesse exato momento.

Penei o telefone e não lembro de mais nenhum detalhe.

De repente, estava no carro da Jana rumo à casa da minha mãe. Eu chorava e tentava ligar para meu noivo. Ele trabalhava à noite, em Valinhos, em um banco, como técnico de processamentos bancários. Era proibido deixar o celular ligado, então por mais que eu tentasse, nada… e mais me angustiava.

Liguei para a Trícia.

– Tri, meu pai. – dizia em prantos, sem nem conseguir falar direito.
– O que Pó, não entendi.
– Tri meu pai, meu pai morreu.

E não lembro de mais nada.

Quando cheguei na casa da minha mãe, me lembro da minha tia Cecília abrir a porta. Passei por ela como se fosse um fantasma, não cumprimentei, não disse nada. Subi as escadas e lá estavam minha mãe e minha irmã Michelle. Nos abraçamos forte e começamos a chorar. Eu não lembro de nenhum detalhe, mas lembro que o clima era de profunda tristeza.

Alguns minutos, ou horas mais tarde, chegou minha outra irmã, a Gabi. Ela estava sendo carregada pelos braços de duas amigas. Ela estava aos prantos e lembro de ela dizer “Nós íamos no cinema à noite. Por que? Ele era meu herói, e heróis não podem morrer!”

Em alguns segundos, a minha casa estava lotada de parentes e amigos. Lembro de ter muita gente, mas não lembro o que fiz, o que falei. Eu não acreditava no que estava acontecendo. Por que ele, por que?

UNIVERSO POLYANAE foi assim que eu descobri que meu pai, meu eterno amigo de todas as horas, havia deixado esse mundo. Ao voltar para casa, em uma sexta-feira, no dia 1 de Novembro de 2007, ele resolveu cortar caminho pela Unicamp e, ao passar pela portaria, uma árvore caiu sobre o seu carro, enquanto dirigia.

Não sei nada exato. Nunca quis saber. Nunca quis entrar em um link da internet pra ler a notícia.

No velório, centenas de pessoas prestavam a última homenagem junto conosco. Amigos que não via há anos estavam presentes. Eu demorei para encarar a verdade. Estava na dúvida se eu deveria ou não me despedir cara a cara com ele. É um momento muito difícil. Como ele estaria? Eu queria? A cena me marcaria? Me lembro de conversar sobre isso com minhas irmãs. Enquanto minha mãe zelava, nós ainda estávamos decidindo. E resolvi que queria muito estar lá, para dar o último adeus. Subi lentamente as escadas e rezei. Lágrimas escorriam do meu rosto, aquilo não podia estar acontecendo. Minha mãe estava sentada em uma cadeira e, quando o vi, desabei a chorar. Era verdade… Ele tinha uma expressão de paz, e não me arrependo da minha decisão. Depois de horas, a última oração, o último adeus. Uma garoa fina caia do céu enquanto caminhávamos e, no final de tudo, muitos aplausos. Um arco-íris surge no céu, como se ele estivesse agradecendo, e desde esse dia, “Somewhere Over the Rainbown”, do Israel “IZ” Kamakawiwoʻole, me faz lembrá-lo!

Esta semana faz 6 anos que meu pai se foi. Resolvi escrever, dentre tantos motivos, pois muitas pessoas me escutam falar sobre ele e timidamente me perguntam o que aconteceu.

 

Lembrar do meu pai é lembrar das suas palavras de incentivo. Ele era uma pessoa alegre, motivadora, sempre tinha uma saída, um conselho, uma lição de vida. Era ansioso demais, mas sabia lidar com a evolução do mundo. Um de seus lemas era “continue a nadar, nadar, nadar…” do filme Nemo! E é isso que fazemos diariamente.

Um dia, eu briguei com meu namorado. No meio do shopping, irritada e sem saber o que fazer liguei para meu pai me buscar. E ele prontamente foi. Eu nunca fui daquelas filhas que contavam seus maiores segredos para os pais. Eu achava que muita intimidade poderia estragar o relacionamento deles com meus sentimentos. A gente briga com namorado e faz as pazes logo depois, mas eles, dependendo da gravidade, pegam birra. E eu como mãe, hoje entendo. rs.

Enfim, nesse dia eu joguei tudo para o alto e desabei a chorar… eu, pela primeira vez, estava desabafando com meu pai. Lembro que ele andava com o carro para um caminho sem fim. Não lembro de um conselho que ele me deu, e muito menos do que eu lamentava. Mas lembro de uma frase:

“Filha, obrigada por permitir-me ser seu amigo hoje. Dentre tantas pessoas, você ligou para mim! Estou muito feliz! Faça isso quantas vezes quiser, pois além de ser seu pai, eu quero ser seu melhor amigo.”

 

UNIVERSO POLYANA

Minha mãe, minhas irmãs, Gabi e Michelle, meu pai e eu

Todo mundo um dia perderá alguém querido, infelizmente. E nós não estamos preparados para isso. Acredito que estamos na Terra para aprendermos a ser pessoas melhores. Acredito que, se estamos aqui é porque escolhemos, e aceitamos, tentamos evoluir, contribuir, melhorar. Acredito que nada é por acaso. Acredito que pessoas cruzam nossos caminhos para deixarem algo de si e levarem algo de nós. Acredito que temos missões a serem cumpridas, e quando cumprirmos, voltaremos ao nosso lar. E só lá iremos nos recordar de quais eram nossas missões.

Essa experiência me fez aproximar de uma religião e me fez acreditar que todos os dias devem ser vividos como os últimos. Viva o hoje com intensidade. Não dê espaço para a mágoa, para o rancor, para as desavenças. Olhe para você e escute seu coração, pois tudo o que fazemos com ele pode não ser perfeito, mas de alguma forma dá certo.

Na última semana, dias antes de ele se ir, meu telefone toca.

– Oi pai! (Eu estava almoçando, e com isso mastigando rs)
– Oi filha, está ocupada?
– Não, pai, estou almoçando.
– Eu te ligo depois então, filha.
– Não pai, pode falar, estou em casa.
– Você sabe que eu nem sei porque te liguei? Esqueci!
– Ixi pai, jura? Mas eu sei porque você me ligou.
– Sabe? Por que?
– Você ligou para dizer que me ama!

Ele riu….

– Isso mesmo, filha, eu liguei para dizer que te amo. Amo muito!
– Eu também pai, te amo muito.

Mas a última vez que falei com ele ao telefone foi um dia antes do acidente. Eu estava na casa de meus pais, conversando com minha mãe, e aguardando meu pai chegar para lancharmos. Mas ele telefonou dizendo que ainda estava em uma reunião importante e deveria demorar um pouco mais.
Lembro que uma das frases foi “Que bom que você está aí com sua mãe. Cuide dela.” “Claro pai, pode deixar. Nos vemos no final de semana.”

E fui embora. E esse final de semana nunca mais chegou! Eu não tenho lembrança da última vez que o vi em vida, e isso me dói.

Se eu pudesse te dar um conselho agora, eu diria: Não deixe para depois. Pegue o telefone, ligue para aqueles que você ama e diga o quanto elas são importantes para você! Não já já e nem mais tarde. Agora!

Mãe, obrigada por conhecer meu pai em uma estação de trem perdida em Franco da Rocha… rs… Eu sei que falo sempre do meu pai, mas queria que soubesse o quanto te amo, o quanto de admiro, o quanto sou grata por você ser minha mãe.

Pai, eterna saudades! Fique em paz! Eu te amo!

 

Leia também o relato da minha irmã, Michelle Occiuzzi, escrito em 2008 algumas coisas nunca mais serão as mesmas

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Polyana Pinheiro

Escrito por: Polyana Pinheiro

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