A culpa de um seio machucado não está na pega

15.08.2019 – Um estudo publicado no European Respiratory Journal revelou que bebês alimentados exclusivamente com leite materno nos primeiros menos seis meses têm menos chances de desenvolver sintomas de asma na infância, como chiados no peito e catarro persistente. Outra pesquisa, desenvolvida pela Universidade de Southampton, na Inglaterra e pelas Universidades do Estado de Michigan e Carolina do Sul, nos Estados Unidos, descobriu que crianças que foram amamentadas por pelo menos quatro meses tinham um funcionamento melhor dos pulmões.

Assim como essas pesquisas dizem sobre a amamentação, convidamos uma especialista que fez uma pesquisa que demonstra que a culpa de um seio machucado não está na pega.

Dra. Flávia Puccini

Fonoaudióloga, mestre em processos e distúrbios da comunicação pela USP, especialista em motricidade orofacial pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia. Consultora de amamentação, laserterapeuta, especialista em dificuldades alimentares, fala, teste da linguinha e disfagia. 

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Aleitamento materno: porque a amamentação é tão importante

Sabemos que a Organização Mundial da Saúde recomenda que o aleitamento materno seja exclusivo até os 6 meses de idade do bebê. Além do vínculo entre a mãe e o pequeno, o leite materno é vivo, tem movimento na composição dele, por isso é a melhor fonte de nutrição para o pequeno.

O desenvolvimento da musculatura orofacial e o processo de desenvolvimento da boquinha da criança começa na amamentação, que exige uma série de movimentos complexos e vai refinando essa musculatura para se preparar para os alimentos.

Ultimamente tenho visto vir mais à tona a realidade sobre amamentação: não é nada simples, muito pelo contrário. A ideia de que amamentar é algo natural e intuitivo e que, ao nascer, o pequeno já automaticamente vai saber o que precisa fazer para mamar é bem distante do que realmente acontece. É por isso que o tempo todo temos visto tristes depoimentos sobre o quanto é dolorido, frustrante e a culpa que sentem as mães que decidiram parar ou não conseguiram amamentar.

 

Dra. Flávia Puccini – Fonoaudióloga e mestre em processos e distúrbios da comunicação (voz, fala e funções orofaciais). Foto de Marco Flávio.

A grande questão é que, imaginem um seio machucado, com fissuras e feridas, e um bebê que precisa mamar em cerca de 2 a 3 horas…as fissuras são tratadas, a pega é avaliada e aparentemente está tudo certo, mesmo assim, o bebê continua machucando, continua não ganhando peso e não mamando direito. Em alguns casos essa dor fica tão insuportável que a mãe não tem mais condições de amamentar.

E é nesse momento que começam as frustrações e o sentimento de culpa. As mães chegam no consultório aflitas sempre pensando que o problema está com elas quando, na realidade, isso acontece na grande minoria dos casos. Sim. É claro que existem exceções, mas o problema, geralmente, não está na mãe e sim no padrão de sucção do bebê. Isso mesmo, não é nem a pega, e sim, a sucção.

No estudo de mestrado que realizei pela Faculdade de Odontologia de Bauru, em parceria com a Telemedicina da USP, vimos que o leite é extraído pelo vácuo criado na boca do neném através dos movimentos feitos pela língua, fazendo com que o leite seja transferido da mama para a sua boquinha. Por isso, a correção e prevenção de problemas dolorosos na amamentação, como os traumas mamilares, por exemplo, é feito pela avaliação e análise dos movimentos da linguinha do bebê e pela reeducação dessa movimentação.

O que acontece é que a maioria das mães ainda não têm acesso à informação de que os principais problemas de amamentação poderiam ser resolvidos por essa avaliação. Se o movimento é feito corretamente dificilmente vão surgir fissuras no seio da mãe. Além disso a produção de leite está diretamente ligada à demanda. Então se o bebê não esvazia todo o leite da mama, a produção diminui ou causa empedramento, e isso também depende dele estar sugando corretamente. Já a mastite é uma inflamação que acontece quando esse quadro é agravado.

É importante que as mães saibam o que fazer e a quem procurar quando precisarem de ajuda, porque é muito mais raro encontrar algum problema de amamentação que não tenha solução do que o contrário.

E quando acontece de não ser possível o aleitamento materno exclusivo também podemos encontrar outras maneiras que de acordo com as possibilidades, rotina e vontade de cada mãe, e tudo bem ser assim também. O mais importante é saber conciliar o desejo de cada mãe, o melhor para cada bebê e encontrar a melhor saída para cada caso. Não é uma mamadeira ou a impossibilidade de amamentar que vai fazer com que o vínculo entre a mãe e o bebê não aconteça.

5 respostas que toda mãe tem que saber

Por que a amamentação pode não ser tão fácil como parece?

Em primeiro lugar eu acho que muitas mães de primeira viagem ainda não tem acesso à informação do quanto a amamentação pode não fluir tão naturalmente como pensamos que deveria ser e acabam não se preparando para o que pode vir pela frente. Demorar para pedir ajuda pode deixar que o sofrimento fique maior.

Qual melhor forma de preparar o seio para esse processo?

O próprio corpo já se encarrega da produção do leite e de preparar o peito para amamentação. Inclusive, utilizar alguns objetos antes de começar a amamentar, como a concha de amamentação, pode até prejudicar a produção do leite; hidratar demais pode deixar a pele mais fina e suscetível a fissuras e fazer estímulos intensos, com bucha, por exemplo, na região podem acelerar a produção de ocitocina e até mesmo levar a um parto prematuro.

Depois do nascimento é importante saber quais são as fases do leite: primeiro vem só o colostro, depois tem a descida do leite. Nesse momento é sempre bom a mãe massagear o peito antes de dar para o bebê e, caso ele esteja muito cheio é bom fazer ordenha de alívio para que fique um pouco mais flexível, assim é mais fácil do bebê abocanhar.

O que é a laserterapia? Quando realmente é indicada?

O laser é uma luz muito potente que ajuda na cicatrização tecidual do mamilo, por isso é muito indicado para cicatrização. Mas é importante ressaltar que ele não atua sozinho. Existe uma causa para que o bebê esteja machucando, então se não analisar e verificar qual é, de fato o problema, a fissura vai melhorar, mas o bebê vai machucar de novo. Se corrigir a sucção e aplicar o laser, a resposta é bem rápida.

Amamentar em livre demanda ou criar uma rotina, qual a forma mais indicada?

Depende muito de qual é o perfil dessa mãe, de como funciona a rotina dela. Não adianta a gente falar que o ideal é uma coisa para uma realidade que não é possível. Mas existem alguns fatos importantes sobre isso: nos primeiros dias de fato é importante deixar a livre demanda, quando o bebê quiser ele pede e mama porque o aleitamento materno ainda está sendo estabelecido e o pequeno ainda está criando um padrão de sucção. Depois de umas duas semanas é preciso saber que se o bebê mal saiu do peito e já quer de novo, ou mama em menos de 1 hora e meia, pode ser um sinal de que talvez ele não esteja sugando corretamente e, se ele não suga corretamente não faz o esvaziamento da mama, o que pode gerar empedramento ou diminuição da produção do leite. E vai virando uma bola de neve….

É possível envolver o lúdico na amamentação?

A amamentação envolve muitas fases da vida do bebê e são fases muito importantes. Não é legal ficar distraindo o bebê, principalmente quando ele é muito pequenininho. É legal que a amamentação seja um momento muito especial entre a mãe e o bebê. É interessante que a mãe converse com o pequeno, conte histórias lúdicas e suaves, esteja atenta a ele, mas evitando que isso distraia muito o bebê.

Texto escrito por Dra. Flávia Puccini.

Revisado por Madame Conteúdo.

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