“Não agrade minha filha só porque ela tem Síndrome de Down!”

 

Maria Marta Picarelli
Mãe do Adriano e da Zoë

 

♥ “Quem disse que uma pessoa com Down precisa ser agradada?”

 

 

Não agrade minha filha só porque ela tem Síndrome de Down!

20.03.17 – Apesar dos enormes avanços que vêm acontecendo com relação às pessoas com deficiência – quem tem síndrome de Down, por exemplo, se faz cada vez mais presente na sociedade: no mercado de trabalho, nas escolas regulares, constituindo família e até circulando livremente pelas ruas –, o preconceito ainda se manifesta. E, muitas vezes, isso acontece de formas sutis ou de comportamentos naturalizados, até mesmo inconscientes.

Hoje em dia, é rara uma situação em que uma pessoa com síndrome de Down seja impedida de entrar num espaço público. No dia a dia, porém, são muito comuns episódios nos quais pessoas com Down são tratadas como quem precisa de ajuda ou de um tratamento diferenciado, uma atenção que geralmente não é dada às pessoas “normais”.

Essa percepção vem da minha experiência como mãe de uma menina com síndrome de Down, hoje com 10 anos. Vou dar um exemplo. Uma vez, fui a uma loja para comprar uma cadeira de escritório e minha filha estava comigo. Ao chegarmos, uma vendedora se aproximou e a abordou de maneira carinhosa, dando a ela uma garrafa de suco industrializado, sem sequer me consultar.

Ela com certeza agiu com boa intenção, mas será que a minha filha queria beber suco? E se ela não pudesse ingerir aquele tipo de alimento por causa de algum problema de saúde? E se a mãe dela, no caso eu, não a deixasse tomar suco industrializado? Não é o caso, felizmente.

De qualquer maneira, o episódio ficou marcado e me fez pensar sobre as atitudes mecânicas, muitas vezes orientadas por concepções de mundo naturalizadas, que assumimos como se fossem verdade.

Quem disse que uma pessoa com Down precisa ser agradada? Por que minha filha é sempre recebida com uma palavra de carinho e um sorriso no rosto e meu filho (que não tem Down e é tão bonito e simpático quanto ela – sim, sou mãe coruja) não o é? Muitas vezes, quando estamos os três juntos, ele nem é enxergado. Ele também é uma criança que quer atenção e, como qualquer um de nós, tem necessidade de ser visto, se expressar e se colocar no mundo.

A celebração do Dia Internacional da Síndrome de Down, por exemplo, que acontece no dia 21 de março, não deve ser “cega”, no sentido de louvar pura e simplesmente o potencial das pessoas com Down. É preciso que elas sejam vistas e ouvidas, sem o filtro das nossas concepções prévias sobre o que elas são ou precisam.

É preciso reconhecer esse potencial, permitindo que as pessoas com Down o expressem como desejarem, dando condições para que isso aconteça. A luta pela garantia dos direitos dessas pessoas é tão importante quanto entendemos por que não é vazia a reivindicação do direito de frequentar a escola regular e receber, dessa escola, todo apoio necessário para superar as barreiras para a socialização e a aprendizagem.

É preciso, ainda, dar voz às pessoas com Down, permitindo que elas expressem seus desejos e vivam com autonomia – o que, claro, só acontece se elas contam, ao longo da vida, com condições para se desenvolver em todas as esferas da existência. Talvez nem toda pessoa com síndrome de Down tenha como projeto de vida ingressar no mercado de trabalho. Algumas podem ter como objetivo desenvolver habilidades artísticas. Outras podem ter como objetivo morar sozinhas. Outras podem querer constituir família. Afinal, como qualquer um de nós, são seres humanos que buscam a felicidade.

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