10 perguntas sobre como é ser mãe de uma criança trans

30.04.2019

Pessoas que não se identificam com o gênero sexual biológico com o qual nasceram são designadas transgêneros.

Assim como temos certeza da nossa cisgeneridade ao nos identificamos com nosso corpo, pessoas trans partilham dessa mesma convicção ao não se reconhecerem.

Minha filha é trans, e agora?

Conversamos com Elaine Horita, mãe de uma menina trans de 9 anos, que nos respondeu 10 perguntas sobre como foi e tem sido essa descoberta.

*Elaine tem um blog que conta sobre sua história, vivências e compartilha dicas de apoio para mães com filhos transgêneros: Possível Mãe de Trans.

Como eram as demonstrações e gostos, tinha alguma atitude ou característica específica que fez você perceber que seu filho era na verdade uma menina?

Desde bebê ele (pronome adequado ao gênero do período) se interessava por sapatos femininos, sempre reparando e não me deixava vesti-lo com qualquer um.

Um exemplo era um coturno de pano, toda vez que ia colocar ele encolhia o pezinho e depois ficava tentando tirar, aí eu o distraía e conseguia.

Por volta dos dois anos e meio, quando começou a falar, questionou o porquê de eu ter cortado meu cabelo e disse que preferia longo, inclusive o dele mesmo.

Implicava com minhas unhas, já que raramente as pinto, ou deixo crescer, reclamava que eu as deveria deixar iguais as de minhas irmãs, longas e coloridas, além de pedir para pintar as dele.

Além de sempre ter se interessado por brinquedos femininos e de animais, coloridos e fofinhos, comecei a ceder quando vi que o mais importante era a criança brincar.

Como os familiares reagiram?

A maioria foi pesquisar na internet e começaram a me mandar videos sobre o assunto, que explicavam sobre a identidade de gênero e a importância do acolhimento.

No geral, meus familiares sabiam das preferencias do meu filho, não foi novidade. Muitos inclusive, o permitiam vivenciar o feminino com abertura e tranquilidade, dando até presentes de menina.

Porém, ao formalizar que aceitei a situação alguns ficaram abalados, como se enquanto fosse “de brincadeira”, estivesse tudo bem, e ao ver como real a necessidade da criança, reagiram com uma espécie de condolência, mesmo o aceitando como era e como queria ser.

O que você tem a dizer para mães que desconhecem a questão de identidade de gênero se sensibilizarem minimamente?

Para as mães que desconhecem o assunto, sugiro se colocarem no lugar dessas famílias e dessas crianças que contrariam o socialmente comum, aceito. Convido a se abrirem para conhecer um pouco mais dessa realidade, que não é doença física, mental ou emocional.

Existem ótimos vídeos e filmes na internet que apresentam essa perspectiva de visão da família e do indivíduo, que sofre preconceito por não ser aceito como é.

Conheci verdadeiramente o preconceito quando ele bateu na minha porta e partir do momento que uma mãe se capacita em assuntos diversos, como este, pode contribuir para uma mudança social, educando o filho com abertura para aceitar e incluir o diferente, facilitando a construção de uma sociedade menos preconceituosa e restrita como a atual.

Como está sendo o tratamento com pediatra? O profissional passou alguma recomendação específica?

A pediatra, assim como o psiquiatra, trata com naturalidade essa questão de identidade de gênero. A preocupação de ambos é a segurança emocional da criança, frente aos ambientes que frequenta, para garantir a saúde mental.

Então, os cuidados são orientações para proporcionar um ambiente seguro, livre ao máximo possível de preconceito e intolerância, para que a criança se desenvolva saudável como qualquer outra.

Como minha filha é muito nova ainda, o acompanhamento será em relação a entrada da puberdade, através de radiografia das mãos, 1 vez por ano, pois se ela continuar segura se sentindo menina, teremos de entrar com bloqueadores hormonais e posteriormente com o tratamento hormonal feminino, para que seu desenvolvimento siga ao gênero com que se identifica.

Você comentou previamente conosco, que houve tentativa de mutilação no genital, como foi?

Da primeira vez, por volta dos 3 anos de idade, foi mais sério, pois quando vi, ele estava pelado com a tesourinha infantil na mão puxando o genital, dizendo que iria cortá-lo.

Expliquei que não poderia cortar porque doeria muito e iria machucar.

Das outras vezes ele me falou que estava errado, que não queria ter pipi e que precisava cortar, isto acontecia principalmente após o banho. Eu tinha de explicar que o genital estava certo, que era importante e bonito e que a gente tinha que trata-lo bem.

Onde são buscadas as informações? Tem dicas de canais ou redes de apoio?

A melhor rede que localizei até o momento é o Mães Pela Diversidade, vejo muita troca de informação, inclusive referencias de médicos que fazem as cirurgias, mas como minha filha é nova, poderá entrar com o tratamento hormonal, e por estar com acompanhamento psicológico pode ser que não tenha necessidade para uma redesignação de sexo.

Sobre cirurgias não tenho grandes conhecimentos, porém canais que conheço são o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, da USP e o Ambulatório de Psiquiatria Sobre Questões de Gênero na Infância, da Unicamp.

Em algum momento houve o questionamento da possibilidade de ela ser um menino gay? Como você teve a certeza da transexualidade?

Eu ficava muito confusa sobre esta questão do meu filho ser gay, pois ao mesmo tempo que ele queria se vestir de menina, era muito cortês e encantado com as mulheres. Hoje aprendi que a identidade de gênero não tem relação com sexualidade.

Compreendi que a questão de gênero é como me sinto ao me vestir e me identificar como pessoa. Os transgêneros sentem-se bem vestindo-se e apresentando-se como o gênero oposto ao da genital de nascimento.

A homossexualidade normalmente é revelada no período da adolescência, quando as alterações hormonais acontecem e por consequência a libido e a atração sexual por um determinado gênero aparece. Vejo muitos casos de adolescentes que se descobrem homossexuais e posteriormente, reconhecem que sentem melhor se assumindo no sexo oposto, isto é, sendo trans.

É meio louco para quem não tem contato com esta realidade. Imagine, minha filha trans (nascida menino), pode no futuro se descobrir homossexual e namorar uma menina. Elas serão lésbicas, mesmo ela sendo uma menina de pipi. Doido, né?

Então essa é a questão, a gente julga doido o que não é comum para nós e muitas pessoas tem repulsa pelo desconhecido.

Da transexualidade de minha filha, eu não tenho certeza. Hoje ela se reconhece e fica feliz em ser menina, e para minimizar o impacto emocional, eu acolho e a aceito como assim, mesmo sabendo que com o desenvolvimento ela pode mudar de ideia e resolver ser cisgênero.

Sabemos que recentemente teve de mudar sua filha de escola, o que motivou isso?

Na outra escola, tradicional e em uma localidade culturalmente restrita, ela sofria bullying por gostar de brinquedos de menina e era chamado de menininha, nojento, esquisito e isto a frustava.

A escola tentou intervir em diversos momentos, porém o público tem uma cultura machista e transfóbica predominante.

Para mudar uma cultura é necessário um amplo movimento. Apenas a escola agindo sozinha não é o suficiente, sem contar o tempo que pode levar, por isso preferimos mudar de escola, para evitar mais abalos emocionais.

Você tem alguma dica para quem desconfia se o filho/filha é trans? Algo que talvez você gostaria de ter ouvido antes de ter certeza que sua filha era trans?

A dica talvez seja muito difícil, porque foi para mim mesmo me julgando mente aberta, mas vamos lá:

Permita que a criança brinque, seja do que for, quantas vezes quiser, independente de ser um personagem feminino ou masculino.

Não tenha vergonha de sair com ele(a) em público, em locais seguro para vocês, vestido de fantasia x ou y. Deixe a criança esgotar as possibilidades dela, não pense que você esta incentivando a orientação sexual ou de gênero ao permiti-la brincar e vivenciar o lúdico.

Minha percepção é que questão de identidade de gênero é muito profunda, não é a exaustão de uma brincadeira que fará seu filho(a) X ou Y, mas talvez, se quando pequeno(a) esgotar a curiosidade, agilizará o processo de descoberta de quem realmente é, pois evita poder gerar dúvidas maiores ou tristeza profunda na criança, caso ela seja trans.

Bem, sobre algo que gostaria de ter ouvido, talvez fosse bom eu ter sido questionada sobre o meu preconceito em não permitir que minha filha explorasse tanto o mundo cor-de-rosa quanto ela gostaria.

Talvez, se meu preconceito tivesse sido colocado em xeque antes, poderia ter baixado a guarda muito mais cedo, e evitado maiores tristeza a ela.

E em relação aos banheiros públicos, de shoppings e restaurantes, como funciona?

Banheiros no geral, de escola, faculdade, ou locais públicos, é de direito do indivíduo utilizar aquele de acordo com o reconhecimento do seu gênero, conforme Resolução nº 12 de janeiro de 2015.

Infelizmente ainda há mau compreensão do que é um transgênero, isto é, uma mulher com pênis ou um homem com vagina, pois é isso que são. Não são maníacos ou criminosos, são pessoas como eu e você, que vão ao banheiro para suas necessidades fisiológicas e para se ajeitar.

Minha filha segue usando o banheiro feminino para a própria segurança, pois ela se veste de menina, então não a cabe ao banheiro masculino.

Na escola, infelizmente por desconhecimento de pais sobre o assunto e para evitar maior conflito, atualmente ela utiliza o banheiro das professoras, que foi muito bem aceito por ela.

 

*Este é um relato de Mãe Amiga e Elaine não é profissional da área, se você possuir dúvidas, em Campinas alguns meios oficiais são:

Unicamp – Ambulatório de Psiquiatria sobre questões de gênero na infância

Atendimento às sextas-feiras a partir das 13h

Tel: 19 3521.7514

e-mail: genero.infancia.unicamp@gmail.com

 

Atendimento LGTBI – Campinas

R. Talvino Egídio de Souza Aranha, 47 – Botafogo, Campinas – SP,

13020-270 fone: 19 32421222

 

Mães Pela Diversidade

(via Possível Mãe de Trans)

 

 

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