Consciência Negra: “Um professor disse que dificilmente eu terminaria aquela faculdade””

20.11.2019 –Dia da Consciência Negra é comemorado em todo território nacional. Esta data foi escolhida por ter sido o dia da morte do líder negro Zumbi, que lutou contra a escravidão no nordeste.

A celebração relembra a importância de refletir sobre a posição dos negros na sociedade. Afinal, as gerações de afro-brasileiros que sucederam a época de escravidão sofreram (e ainda sofrem) diversos níveis de preconceito.

Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no Brasil o preconceito é sempre atribuído ao “outro”. Assim, 63,7% dos brasileiros entendem que a raça determina a qualidade de vida dos cidadãos, principalmente no trabalho (71%), em questões judiciais (68,3%) e em relações sociais (65%).

Frases como essa: “Já deixaram escapar coisas pejorativas de negros perto de mim e disseram você é diferente” é comum na nossa sociedade para muitos brasileiros, por isso ter um dia, no qual é colocado em pauta a consciência negra é fundamental para entendermos e ensinarmos nossos filhos a não serem racistas.

O relato hoje é da Mãe Amiga Karise Maximiano, contabilista, advogada e mãe de 2 meninas (sendo uma biológica de 9 anos e a outra do coração (enteada) com 20 anos).

Racismo e preconceito no Brasil

Ser negro no Brasil ainda é muito complicado, eu tenho um orgulho imenso da minha etnia, fui criada com muita orientação dos meus pais e mesmo assim hora ou outra esbarrava nos obstáculos em função da minha cor, exatamente isso, em função da minha cor.

Quando criança e adolescente, tinha uma condição financeira mediana e 98% dos meus amigos eram brancos, então algumas vezes inclusive imperceptíveis pelos meus amigos brancos, mas muitas vezes em que estava com eles em shopping, clube, “baladas” sentia o comportamento das pessoas sempre achando que eu era a filha da empregada que era levada junto nos passeios, independente de estar com mesmo “tênis X” , “jaqueta da marca X” ainda eu era olha de forma diferente, isso me incomodava muito, mas conforme fui crescendo aprendi a me posicionar e ás vezes precisei ser quem eu não era, exemplos: Entrar em uma determinada loja, perguntar de determinado produto e a vendedora antes de responder minha pergunta, falava o preço, mesmo sem eu ter perguntado o valor. Porque com as minhas amigas não acontecia dessa forma.

Karise e sua filha mais nova

Karise com sua filha mais nova

Nossa, resgatando tantas coisinhas que doíam tanto. É impressionante como as pessoas se dizem contra o racismo, desprovidas de qualquer preconceito mas basta ter um desentendimento com uma pessoa negra que a primeira coisa que vem são as expressões: Macaco, Negro fedido, Preta Favelada, Volta para cozinha, volta para senzala e tantos outros termos, que as pessoas conseguem se controlar enquanto está tudo bem ou seguram por receio de serem presas ou responderam judicialmente pelos atos, apenas para isso.

Já ouvi de pessoas até então próximas que seria complicado ver o filho namorar uma mulher negra e ser avó de mulatinhos. Também já deixaram escapar coisas pejorativas de negros perto de mim e ainda disseram, mas você é diferente. Não sei o que passava na cabeça dessas pessoas de achar que não iriar doer as coisas ditas. Com ambos não tenho mais contato, ficaram sem entender, mas simplesmente risquei da minha vida.

No primeiro dia cursando a faculdade de Direito (era a única negra até então), um professor disse eu era uma exceção e que dificilmente eu terminaria aquela faculdade, entre 80/90 alunos na sala ele dirigiu aquelas palavras para mim. Eu fiquei tão surpresa, não com o racismo, mas por ter vindo de um professor com um alto cargo no Tribunal de Justiça, no decorrer do ano nunca mais falou comigo, não me senti perseguida, mas a minha presença ali não o deixava confortável. Segui e cá estou eu, rs rs.

Mas de tudo, quando falamos de racismo o que me doeu mesmo, eu não conseguia dirigir de tão tremula, foi quando minha filha em uma academia estava sentada e uma criança de olhos e cabelos claros foi até ela e a chamou de Preta Burra na frente de todas as crianças, minha filha era a única criança negra daquela apresentação… ficou sem entender, foi até mim na sala de espera, contou o fato e disse: Mãe, me ajuda. Faz alguma coisa. Naquela hora percebi o quanto ela não estava preparada para enfrentar isso. Fui falar com a professora, mas antes encontrei com a auxiliar que muito sincera confirmou que minha filha não tinha falado nada e que a outra criança fez aquilo mesmo, segui em direção da professora e ouvi uma das frases mais tristes da minha vida: “Olha, eu não vou falar com os pais dela não, porque ela é adotiva, a família dela é linda”. Ela menosprezou o fato, menosprezou nossa dor, não achou um absurdo dentro da sala de aula dela uma criança ofender a outra. Eu só não fiz um escândalo porque era um dia de ensaio geral da academia, estava cheio de gente, fui até a secretaria e pedi o e-mail da direção. Cheguei em casa e escrevi um texto imenso, a direção me ligou na hora, foram muito atenciosos, repudiaram o fato, falaram com a professora, com os pais da menina, foram incríveis…souberam conduzir a situação de uma forma tão humana, isso é ter consciência sobre o dia da consciência negra.

Karise com sua enteada

Karise com sua enteada

Dias depois, a família encontrou comigo na praça da apresentação, disse que a menina queria pedir desculpas para minha filha ( ela não pediu) e disseram: Nunca mais ela vai fazer isso. Mas não foi sincero, não foi do coração…. talvez receio de que eu contasse para outros pais. Já a professora deixou de ser professora da minha filha no ano seguinte, porém nunca se desculpou, talvez por saber que palavras ditas e comportamentos inadequados fica impossível voltar atrás, mas teve zero empatia. Lembro que abracei minha filha, falei o quanto ela é linda, seus cabelos e principalmente sua cor …como sempre fiz desde quando ela nasceu, mas desde esse fato, além disso, sempre falo para ela jamais permitir que ofendam a cor da sua pele ou o seu cabelo, que ela deve sempre se posicionar, dizer que não gostou e na dificuldade contar para o adulto que estiver com ela. Hoje ela sabe que racismo é crime, hoje apesar de dizerem que não, ela sabe sim que infelizmente fazem diferença entre negros e brancos e que estamos lutando muito para mudar isso. Tudo seria tão diferente …, mesmo após tanto tempo meu povo negro ainda sente o reflexo da falta de oportunidade e infelizmente muitas vezes por isso acabam caindo na marginalidade, o que aumenta a violência.

A cultura negra influenciou positivamente na música, na gastronomia, religião e tantas outras áreas, mas algumas pessoas ainda só conseguem enxergar a cor da pele.

Espero que o dia da Consciência Negra não seja apenas um feriado para descansar, seja também um dia para se discutir o assunto e explicar para as crianças tudo que aconteceu com os negros, quem foi Zumbi. As crianças são o futuro, quem sabe se crescerem conscientes, meus futuros netos não passarão pelo que nós já passamos e ainda se passa nos dias de hoje.

Temos o dever de nos conscientizar que no passado existiu muita dor, injustiça, maldade, covardia que acabou colocando os negros em uma situação “inferior” e que hoje temos que nos esforçar muito para sairmos dessa condição.Todo esse sofrimento, tudo que aconteceu e ainda acontece tem que ser refletido.

Apesar do nome ser Consciência Negra, essa luta deveria ser de todos, negros, amarelos, brancos e juntos construirmos um mundo melhor, um mundo saudável contribuindo para formação humana de cada indivíduo, principalmente as crianças.

Fica a reflexão, mesmo talvez essa dor não sendo a sua, você já conversou com seus filhos sobre racismo, preconceito. Já conversou sobre a dor moral que uma pessoa que foi vítima de racismo poderá levar para a vida toda? Você mesmo, já teve uma atitude racista?

 

Texto escrito por Karise Maximiano.

Revisado por Madame Conteúdo.

 

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