A doença da incompreensão

28.10.2019 – Você já ouviu falar de um problema auditivo caracterizado pela incapacidade do cérebro de processar os sons? Perceber as pequenas diferenças entre os sons das palavras  não é tão simples para quem sofre com o distúrbio do processamento auditivo central, a doença da incompreensão (DPAC).

Problema auditivo pode afetar pessoas de todas as idades, mas é mais comum em crianças. Entre 2 a 7% do público infantil em idade escolar pode ter DPAC diagnosticado ou não.

Reconhecido pela medicina há apenas 15 anos, o transtorno afeta a capacidade de compreensão do indivíduo. A pessoa detecta os sons normalmente, mas não os interpreta, é como se fossem apenas ruídos. Quando relegados à própria sorte, a alfabetização não é bem-sucedida, porque os estudantes não entendem o que o professor fala, não são capazes de escrever, interpretar textos e compreender o enunciado de problemas. No Brasil, pouquíssimos profissionais da saúde e da educação estão capacitados a lidar com o distúrbio, deixando as crianças reféns da própria incapacidade e do desconhecimento alheio.

Confira o relato de uma mãe amiga que está nesse processo com o seu filho de 7 anos.

 

 

Ana Cláudia Melo

Por que ele não está aprendendo?

Tenho um filho de 7 anos que está no 2 ano do fundamental, em uma escola estadual aqui mesmo em Campinas. Nunca tive problemas nenhum com ele desde então, sempre foi uma criança que brinca, socializa com todos, faz natação desde os 1 ano e meio, nada que não seria normal.
Ano passado, bem no final do ano, ele começou a se sentir mais dificuldade na escola, enfim acabou o ano letivo. Esse ano ele foi para o 2 ano na mesma escola, fazíamos lição, atividades de casa, comecei a perceber que algo ia errado, não só eu como o pai também.
Pois bem, um belo dia a professora dele que passa um zap e disse: – Mãe estou observando que seu filho não está assimilando conhecimento eu perguntei como assim? Ela me disse: a gente fala e ele não absorve (se posso falar assim mãe).
Marcamos uma reunião eu ela e o pai…Conversamos, falei meu ponto de vista, o que eu estava vendo e ela os pontos dela (ela se dedicou à observar ele com mais atenção ainda, e foi de grande importância cada detalhe que ela descreveu). Nesse momento comecei a pesquisar, ler e tudo que ele fazia e que estava acontecendo, tive a certeza de que era DPAC.
Sai da escola com a carta em mãos, primeiro passo procurei uma psicopedagoga  e começamos a fazer as sessões, cada dia era uma novidade, acertos e erros, depois de 4 sessões, saiu um laudo.
Fomos em oftalmo, otorrino para ver se eram esses fatores que poderiam estar prejudicando o aprendizado dele, meu filho me olhava e falava:

Mamãe eu enxergo, mamãe eu escuto….meu coração chegava chorar.

 

Passamos por um médico que me deu o que eu mais precisava e queria naquele momento a guia para fazer o exame da cabine. Chegado o dia fomos para a clínica, ele me disse venham sem pressa porque o exame é longo…eu percebi como meu coração batia forte, ansioso….Ele saiu da sala a fono me chamou já com o exame em mãos…
Chorei, chorei, chorei de alegria e ao mesmo tempo de tristeza. De alegria porque enfim descobrimos o que ele tem e de tristeza pelo fato que a gente nunca quer aceitar.
Exame na mão vamos procurar uma fino que faça esse tratamento…Terapia em Cabine é o aconselhado. Poucas profissionais fazem esse tratamento. Consegui uma profissional fantástica, humana, onde estamos fazendo as terapias.
Temos a certeza de que é DPAC (Deficiência do Processamento Auditivo Central). Normalmente falamos assimilando e as informações são mandadas para uma parte do cérebro. Já pra quem tem essa doença, a assimilação não acontece de forma natural, por isso a fono tem papel fundamental para estimular o cérebro para começar a trabalhar normalmente.
Tem tratamento, e pode sim a criança ter uma vida normal.
Distúrbio do processamento auditivo central

O que aprendi?

Ano passado na hora que eu ia pegar meu filho na escola a professora parecia uma doida…Mãe ele não aprende nada, mãe conversa com ele… Essa não teve a paciência e esses já eram sinais do DPAC. A professora dele teve papel importantíssimo com a dedicação, feeling para me ajudar nesse processo… todos os profissionais que eu fui parabenizaram ela por tal dedicação e saber que algo não ia bem. Em vez de criticar, vir até nós e expor para juntos ajudarmos ele.

Aprendizado para meu filho

Durante as aulas ele sente na primeira carteira. As provas precisam ser lidas pela professora e quando possível ele faz a prova sozinho em uma sala, porque o barulho e bagunça atrapalha muito a sua concentração. Muitas vezes isso não é possível.

Lições de casa

Durante o processo dele de lição de casa, às vezes eu ficava nervosa com ele…. Naquele dia que cheguei com os laudos, peguei ele pela mãozinha e falei:

Me perdoe, me desculpe por em alguns momentos eu não ter tido, por ter vezes em que te ensine gritando. Hoje sei que a dificuldade era realmente dificuldade e não preguiça.

Mudanças

Algumas coisas tivemos que mudar… Falo com ele mais pausadamente, na hora de dar aquela bronca falo pouco e objetivo…não mais Bla,bla, blá…( até na hora das broncas temos que falar de outro jeito, porque se falarmos muito ele vai demorar para processar entender)
Jogamos quase todo dia jogos das memórias, uno, vareta e outros.

Tratamento

Ano que vem ele passará por uma neuro para conseguirmos fechar os laudos.
Estou vendo que ele está caminhando, tendo resultados. O importante é ir atrás do tratamento.
Texto escrito por Ana Cláudia Melo.
Revisado por Madame Conteúdo.

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“Me demiti para cuidar da doença do meu filho e não romantizo isso. Sofri muito!”

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