Nasce uma mãe e uma mulher leoa-borboleta

 

 

Luiza da Silveira Gonzalez
Mãe da Manu e da Júlia

“Mas o fato é que algo em nós morre quando um bebê nasce. Ficamos órfãs daquela parte…”

 

Nasce uma mãe e uma mulher leoa-borboleta

“Maternidade também implica, de certa maneira, em orfandade. Sim, um paradoxo mesmo. Mas o fato é que algo em nós morre quando um bebê nasce. Ficamos órfãs daquela parte, já velha conhecida, que nos guiava, aconselhava, com que lidávamos tão bem. Ficamos órfãs de nós mesmas. Não é que a gente se perde, se confunde, e logo vai se achar. É morte morrida. Pá-buf! Ficamos órfãs de velhos conceitos, das certezas, da vida fácil. Ficamos órfãs. Uma falta doída, sentida, acompanhada de desamparo – daí a orfandade. A parte boa é que se trata de uma orfandade que vai virar renascimento.

Ficamos órfãs da amizade vivida sem hora para encontrar. Da vida acadêmica, que tanto alimenta. Do trabalho que ficou pra trás e precisará, de alguma maneira que ainda não sei bem qual é, ressurgir das cinzas. Do olhar livre de ácidos julgamentos. Da memória (memória? Que memória?!). Do rosto descansado e sem olheiras. Da força para responder às grosserias do dia a dia – a gente fica tão cansada que deixa passar…

Ficamos órfãs da turma de amigos sem filhos, que está viajando o mundo ou em festas enquanto amamentamos. Da liberdade de poder ir e vir a hora que quiser, para onde quiser. De um sono restaurador. De dias sem exaustão. Órfãs de livros, de filmes, de teatro e shows. De bater papo na academia sem culpa de ter deixado a bebê com a babá. De compreensão – não aquela do senso comum, mas da profunda compreensão que vem da empatia – e essa é para poucos. Talvez essa orfandade é a que mais doa – até quem acha que compreende, quem tenta compreender, não compreende. Tenho pra mim que até quem já foi mãe esquece.

A gente fica órfã de perguntas sobre como estamos, pois só ouvimos perguntas sobre as crianças, amamentação, fraldas. Do shopping ao invés das lojas de departamentos infantis. Órfã de batom, brinco, salto alto. De perfume francês ao invés de cheirar leite. De tomar uma cerveja sem preocupação. Aliás, órfã de tomar saquerinha de morango, um bom vinho. Órfã de um bom barzinho, numa boa companhia, com boa música. Órfã de samba e amor até mais tarde cantado pela Bebel Gilberto – o “muito sono de manhã” está sempre presente!

É uma orfandade de pequenas coisas que vão dissolvendo nossa identidade, pouco a pouco. Depois do alvoroço em torno da gravidez, dos familiares em volta com a chegada do bebê, da visita dos amigos, nos deparamos com a necessária solidão da madrugada, aquela que permite entrarmos em contato com o que de mais verdadeiro existe em nós. Estamos órfãs, mas carregamos o amor no colo, no seio, nas veias. E amor transforma. Transmuta. Faz renascer.

E é desse misto de orfandade e solidão, cozida no caldo do vasto amor , no abundante e inexplicável amor que há entre a recém-parida e seu bebê, que nasce a mulher-e-mãe. O amor é adubo que faz brotar a nova pessoa que virá, com asas e garras e presas. Mulher-leoa-borboleta. Recém-mães são como a primavera de Cecília Meirelles: precisam deixar-se cortar para voltarem inteiras, fortes e viçosas para o próximo ciclo da vida.

Nasce uma mãe e uma mulher leoa-borboleta

 

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