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Eu sofri abuso sexual infantil

23.05.2018 – Eu sofri abuso sexual infantil. Duas pessoas da minha família, bem próximas a mim, invadiram o meu corpo e me apresentaram a sexualidade aos sete anos. Eu sabia, sentia que algo estava errado. A expressão e a forma como os adultos lidaram comigo deixou bem claro para mim que aquilo não era certo, e isso me trouxe uma avalanche de sensações: hora era bom, hora era ruim.

“Bom” porque as sensações do toque são fisiológicas e, mesmo sabendo que aquilo era errado, eu não podia evitar. Por anos sofri e me senti culpada por esses pequenos prazeres. Com terapia e amadurecimento, entretanto, fui entendendo que tudo o que havia acontecido não tinha sido uma escolha minha, mas sim que tratava-se de uma invasão da minha inocência.

“Ruim” porque não tem nada mais estranho, triste e angustiante do que você confiar em alguém e essa pessoa usar você em uma atividade “proibida”. Não sei muito bem dizer, mas vivi logo cedo muita frustração, medo e insegurança. Eu queria sair dali, mas não tinha coragem, força e nem sabedoria para entender ou reagir. Eu era uma criança!

Uma criança que teve o corpo invadido enquanto dormia e, depois, brincando na piscina. Na adolescência, foi pelo pai de uma amiga. Depois, por meninos da minha idade!

Dos 7 aos 16 anos, a minha vida sexual foi confusa, bagunçada, uma mistura de raiva com prazer. Eu me lembro, claramente, de querer seduzir aos 13. O jogo era mais fácil para mim. Fui treinada desde pequena! Dói ler isso, né? É agressivo? Eu sei, eu também achei! Não apenas quando criança, mas também no meio da minha terapia.

 

Sim, eu precisei de DEZ anos para entender o tamanho dessa invasão. Eu já era adulta e tinha o meu filho quando enfrentei sessões pesadas ao lado da minha psicóloga. Já saí do consultório dela chorando, gritando, com raiva e com pena de mim mesma. Descobri que muitos dos meus desafios atuais estavam nessa vitimização que eu não escolhi, mas que foi implementada dentro da minha mente.

Até hoje me vigio para não cair nas lamentações do que aconteceu. Esquivo do sentimento de raiva e tento entender que eu não sou mais uma menina. Agora eu posso gritar, agir! No ano passado, passei por um processo de coach que me fez enfrentar, mais uma vez, essa menina machucada que mora dentro de mim.

Aprendi nessas seções que essa pequenina que foi abusada na infância sempre morará aqui dentro, mas que a mulher que cobre ela é muito mais guerreira e forte. Às vezes, me pego no carro conversando com a “pequena Mi”. Dou conselhos a ela, a abraço com carinho, digo o quanto a amo e o quanto agora EU estou aqui para protegê-la.

Por que eu estou contando tudo isso para vocês? Bom, apenas para explicar que nem sempre, pelas redes sociais, nós conseguimos saber quem são as pessoas que estão por trás daquela tela. Que, siiiimmmmmm, temos as nossas batalhas, os nossos medos, a nossa história. A única coisa que desejo hoje é poder contar para TODAS as mães o quanto é importante explicar aos nossos filhos o significado do “segredo”.

“Não existem segredos se não forem para trazer alegrias”

Nunca contei isso tudo ao meu filho (claro)! Porém, um dia, quando ele aprender a navegar pela internet, poderá encontrar esse texto. Entre nós dois, não é preciso existir nenhum segredo que gere medo, angustia ou tristeza. Não existe nada entre mim e o meu filho que precise ser escondido. Por isso, essa conversa é frequente em casa:

– Filho, se algum dia alguém pedir para você guardar um segredo que te gere medo, angustia, tristeza ou que você sinta vontade de chorar, saiba que tem algo muito errado aí. Se essa situação acontecer, por favor, me conte para que eu possa te ajudar a nunca mais sentir essas sensações! Eu vou te proteger sempre, combinado?

É isso. Abra o jogo por aí também e proteja o seu filho, porque se a pessoa que você segue na rede social já passou por isso, por que o seu filho não pode passar? Fique atenta aos sinais!

Recado ao meu filho

Hector, meu filho, me desculpe por essa exposição, mas a mamãe quer muito ajudar as outras mães a protegerem os seus filhos. Caso esteja sentindo vergonha ou raiva, eu entenderei. Gostaria apenas de poder conversar com você em casa sobre tudo isso, ok? Como eu te falo desde pequenino, não existem segredos se não forem para trazer alegrias. Te amo!

Beijos, mamãe.

 

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Michelle Occiuzzi

Escrito por: Michelle Occiuzzi

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